27.2.07


Chegaste era noite. A noite na cidade escura e de muros altos e apagados. De estrelas frias e nunca olhadas. Tinha o olhar preso em coisa alguma, quando ouvi o estalar de folhas secas. Olhei por cima do ombro e vi-te. Tinhas chegado finalmente. Puseste os pés um à frente do outro e chegaste perto de mim. Sentia-te a respiração, sentia-te o olhar a afastar o ar dos pulmões. Sentia-te perto, demasiado perto. E os teus pés recomeçaram a andar, como se fosse possível andar muito mais do que os milímetros que separavam os teus pés dos meus. Mas foi. Os teus pés ficaram os meus pés, as tuas mãos fecharam-se nas minhas, os teus olhos viram o que eu via, o teu nariz respirou o que eu respirava, sentiste o ar que se deitava no chão. Deitaste-te na minha pele, e senti-te no dentro de dentro do dentro. Deitaste-te na minha pele, e nesse momento morri. Morrer é tu chegares na noite e deitares-te em mim…morrer é dar-te vida, e eu morri, sobre o estalar de folhas secas, sob a cidade escura.







Morri-me. Nasci-me.

5 comentários:

Anónimo disse...

Morre-se sempre um bocadinho a cada entrega para se renascer em seguida... tal como a fénix...

D. disse...

a morte deitada no escuro da cama feita e desfeita em poros de pele... texto mesmo muito bonito...

Sara Morgado disse...

Morrer em cada passo, como se fossem arrancados pedaços de carne. Como uma invasão.

Unknown disse...

Morte e Vida... barreira fina e transparente que as separa...
Gostei muito do texto!
bjos!

Diogo disse...

Gosto da tua escrita, muito doce...
e criativo

*